domingo, 19 de dezembro de 2010

Renascer

Pra mim, foi de repente, pareceu um raio cortando a curva de 90º que separava você de mim; andei em um descompasso enquanto a água rolava dos meus olhos, meu soluço era um estrondo no meio do silêncio, eu me vi ali, parada em frente à placa que identificava as ruas, segurando com uma mão a caixa de lenços e a outra me apoiando para não desmoronar no chão... Eu não via nada a minha frente, meus olhos estavam embaçados e minha garganta quase que sangrando; Eu poderia gritar por socorro, mas era impossível... O véu da lua tocava meu rosto e as estrelas brindavam diante de mim, o fim.

O fim chegara rápido demais, e eu nem tive a oportunidade de sentir o caminhar de nossas vidas. Eu agora olhava as nuvens se formarem, as lágrimas cessaram, e tinha a sensação de que seria temporariamente, mas pelo menos, não iria acabar acordando a vizinhança inteira. Ver-me ali, parada, era quase que deprimente. Eu poderia até rir de mim mesma, mas acabaria parecendo uma enorme loucura.

Não quis mais me mexer, o frio era suportável, e a saudade que começava a tomar seu lugar não chegava a ser agoniante, de vez em quando suspirava fortemente, uma lágrima escorria e eu a secava. Fiquei sentada durante toda aquela madrugada, ninguém passou ao meu redor... Foi melhor assim. Olhei naquele instante a caixinha de lenços e a vi se definhar pouco a pouco, alguém roubou seu conteúdo para lamentar-se de erros e afins. E principalmente de vidas que não voltam mais.

Olhei para o céu novamente e vi que as estrelas já haviam se cansado de me avaliar, elas retornaram a seus esconderijos e me deixaram. As nuvens, porém, estavam cada vez maiores e cheias, cheias de lágrimas cortantes e frias. Mas ainda sim, elas doíam menos que a dor que eu trazia comigo... Era bom poder sentir o vento frio tocar meu corpo, e anestesiar cada parte que ainda sentia vontade de gritar. Naquele momento eu acabava de perceber o quão bom é contemplar a beleza da noite, são poucos os que o fazem. Acabei por tirar proveito da minha dor, o céu me agradecera a companhia, mais tarde.

Diante de tal situação, a única coisa que eu poderia fazer em retribuição era sorrir... E assim o fiz, sorri para as nuvens que já estavam se dissolvendo e para os primeiros raios de manhã que nasciam, por mais incrível e desajeitado que parecesse, meu rosto era um enorme e vermelho compasso, as lágrimas rolavam e se envaiam dentro de mim, assim como a sensação de perda. Estava perdendo parte do que era vida e parte do que foi carinho. Não me mexi dali... Esperei o sol raiar e a noite se esconder. Não pude me despedir da lua, ela acabara de voltar para seu destino e cansara de me ver sozinha, a espera de um alguém.

Eu poderia ser forte, não me entregar... Poderia aceitar o tempo como guardião da minha dor, mas não! Eu tinha que soltar meus brios e perder a certeza de que tudo iria ser como antes. Era sonho.

Acabei por lembrar a minha infância.

Quando você é criança, lhe dizem que um dia seus sonhos serão realidades. Pois então, não havia ninguém para me garantir realidades naquele dia, nem naquela noite e muito menos no dia seguinte. Pudera perceber a forma como eu acabara de esconder a sensação de vazio. Era como se a nuvem de choros tivesse secado, agradeci por isso; mas, as saudades (que não iriam demorar muito para aparecer) começavam a se tornar mais frequentes e o céu parecia escurecer nas primeiras horas do dia.

Fui forte. Fechei os olhos e respirei fundo.

Decidi não mais me abalar pelo erro de não ter alcançado o inusitado senso de amar, amar a cor dos olhos, da pele, o sorriso apavorante e o beijo... Não era mais tão espetacular cair na tentação de seus braços, já não poderia mais me amarrar a você; muito menos te fazer de meu chaveiro e te carregar pro mundo, um mundo que era só meu, aliás, é só meu.

As trancas nas portas são mais fortes que meus anseios. Elas se abrem a mim, apenas quando eu dou o sinal de alerta, preciso correr e me proteger dos olhos curiosos e das bocas incessantes.

Não se deve confiar nas línguas ferinas que andam correndo soltas por estas ruas de lágrimas, meus amigos estão dentro de mim, não confiava mais na direita nem na esquerda, não queira pessoas me olhando e dizendo o quanto sentiam por tudo. Eu preferia ficar só.

Acredito apenas no que eu quero, e vejo que deve ser o melhor para o futuro ao lado das flores amarelas e vermelhas daquele enorme jardim que vi se formar no meio do meu coração quando você partiu. Pude sentir o cheiro das flores, a brisa do mar e o teu som, aquele que cantarolavas ao meu ouvido assim que me vias. Vou te guardar na memória, no céu e no coração... Levo teus olhos a me guiar e teu cantar a me eternizar.

Sou rainha da vida, sou a moça que queria mais brilho, sou a forte saudade da lua, o enorme rugir dos ventos, a falta que te faz nas noites de acampamento... Sou o brilho dos teus olhos, as letras que cantas; a verdade que teimas em hesitar e o sol que se faz mais forte na transparência dos teus olhos.

Depois de uma madrugada inteira, abandonando pedaços de mim, pude sentir o que era reviver, o qual era bom poder lavar a alma diante do frio da madrugada, da água da chuva e da dor que eu carregava comigo, aliviei sensações, sorri para um céu inconformado, uma lua triste, e para estrelas que nunca serão companheiras, perdi a sensação de inquietude e pude sentir o renascimento, ganhei forças... Assim como uma flor se abre no raiar de um novo dia, e flores renascem na primaveram, assim como meus olhos contemplam a beleza dessa manhã.

Sinto o sol invadir meu ser, os pássaros cantarem diante de mim e a caixinha de lenço permanecer vazia ao meu redor, me dizendo que tudo teve um fim.

Irei levantar-me daqui com a certeza que começo um novo dia, não apagando tudo o que aconteceu e sim deixando de tornar viva e dolorosa a lembrança que tenho de nossas vidas. Deixar que pouco a pouco a saudade se instale em meu peito para me fazer voltar a esta esquina e contemplar o ir e vir da noite.

Meu choro ainda não cessou, mas sei que já não vai doer tanto pelo menos enquanto eu puder ter o céu a me fortalecer.

“E se nessa vida o meu querer é quase nada; que o meu renascer seja uma eterna alvorada; que eu possa te perder para me encontrar”.
Adriano Hungaro

Ivy Saliba

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