"É como diz a velha história: podia realmente ser diferente.
Você passa por mim, sem deixar palavras, sem deixar gestos... Você não permanece. Quem diria que um amor tão grande, um amor de olhar, um amor de sensações não fosse existir nem muito menos acabar? Você brinca em minhas alegrias, se envolve em minhas tristezas, amanhece em meus sorrisos... e passa pelo meu caminho sem deixar pistas de onde você se esconde.
Amar você seria pecado, um pecado que é benção, mas onde pode existir amor e ilusão? É estranho perceber que você já não volta mais aqui pra dizer palavras bonitas, você volta apenas pra me lembrar de que estou presa a você e de que você ainda vive em mim... Mesmo eu achando que já não vive mais.
É uma ilusão derradeira, uma conclusão de uma vida que teima em existir... Uma paixão que parece queimar e acalentar a alma; uma ponte que existe, mas que ninguém pode atravessar. Caminho sem rumo, pé se chão, mãos que não se tocam, beijos que se restringem, resistências que são forjadas por medo, restando apenas olhares. Olhos que se buscam, e são capazes de transmitir sentimentos, os mais puros, se é que podemos pensar assim. Estranho seria... Não sentir mais você por perto.
E se o estranho fosse verdade, você já estaria bem longe. E talvez fosse bom te sentir longe, seria como abraçar o vazio, como olhar o horizonte e avistar um imenso nada, mergulhar em um abismo de saudades... Mas, você apenas passa, para que eu o veja e perceba que você não partiu e que o sentir ainda existe, porém, do que adianta sentir se você não está aqui? Se você não permanece? Não deixa sorrisos nem palavras;
Permanece apenas o olhar. O olhar que suga o existir, que me faz respirar fundo e sentir o coração palpitar toda vez que o encontro. Um olhar que eu já cansei de sentir – ou talvez não. E esse é olhar que me faz perder o tempo, que deixa a imensidão do silêncio sufocar e fazer com que apenas o hoje seja percebido, sem poder sentir o futuro.
Já não existe mais fôlego, existem apenas suspiros... E um perfume que invade o peito e sufoca os pensamentos. Um perfume que deixa a certeza de que você ainda está por “perto”, um perto que se torna ausente, e uma ausência que se mistura com proteção. Uma proteção que foi prometida, mas que talvez já existisse antes da promessa. Promessas se cumprem com o tempo, palavras o vento leva, momentos se eternizam, amores trazem experiências, ou não... Saudade dói, mas nada que o tempo não cure – infelizmente é o tempo, poderia ser uma injeção imediata.
Você passará por aqui quando a noite chegar, irá me olhar fixamente em silêncio, como sempre fez, irá me abraçar em um vazio que continuará eterno, brindará o tempo com seus olhos e seu sorriso, me amará em seus anseios, e esperará o tempo passar. Apagará as luzes quando o sol raiar e sairá pelo fio de cada pensamento retornando ao seu esconderijo... Consagrando cada fim com um adeus silencioso, um adeus que não possui forma de adeus. E ficarei aqui, vivendo cada instante, e sentindo falta de cada “não gesto” feito e de cada respirar... Não sei até quando, nem o porque de viver esse “quase amor”. Ele transcende a cada envolver de olhos, e morre a cada vez que você passa. Preciso de explicações para o inexplicável. Sinto por elas não existirem e sinto ainda mais por perceber que já não consigo mais encontrar a saída, é um labirinto que não tem mais volta; muito menos manual de instrução... O medo existe por eu ter a certeza de que você irá morrer em meu pensar e se eternizar no caminhar de cada dia.
No fim a certeza é que você vai continuar passando, e não vai permanecer... Ainda vai existir o calor de uma esperança, um olhar fixo e um espaço vazio. Ainda vai fazer frio durante muito tempo, os gestos continuarão sem existir, o silêncio ainda permanecerá... A saudade aumentará e aquilo que ainda parece simples e inquietante, vai acabar sendo o que mais me fará lembrar você, seus olhares."
Ivy Saliba

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